Por Kyalene Mesquita

O auditório Clovis Salgado, na UNIFESP, foi palco de um encontro histórico que reafirmou a Redução de Danos (RD) como uma estratégia de saúde, justiça social e resistência política.
Durante os dias 29 e 30 de maio de 2026, o Seminário Interdisciplinar de Redução de Danos transcendeu as fronteiras da saúde e da academia, reunindo vozes de trabalhadores da ponta da RD, movimentos sociais, profissionais da rede pública e representantes do poder público.
O evento organizado pelo FERD-SP em parceria com a ANRD, destacou que a redução de danos não é apenas uma estratégia técnica, mas uma prática política e ética de resistência contra a criminalização e o proibicionismo.
Representantes de organizações como o Centro de Convivência É de Lei e a Associação Brasileira Interdisciplinar de Estudos sobre Drogas (ABRAMD) enfatizaram a importância de repolitizar a vida dos usuários, tratando-os como sujeitos de direitos e não apenas como alvos de políticas de repressão.

O primeiro dia foi marcado pela urgência da institucionalização e da organização política. O evento promoveu uma aula aberta pela manhã, com participação especial de Luana Malheiro, Dênis Petuco e Michel Marques, que debateram junto aos participantes do seminário os diferentes desafios ao longo da história, na organização da redução de danos dentro da política institucional, da militância e dentro da pauta de saúde pública.
À tarde, as mesas focaram na regulamentação da profissão e trouxeram à tona a precarização histórica de quem dedicadamente salva vidas nos territórios mais vulnerabilizados.

Maria Angélica Comis, especialista na área de política de drogas e redução de danos, pontuou que a RD é uma política intersetorial que nasceu da coragem nos territórios e continuará se fortalecendo através desses mesmos lugares. Citou a psicóloga: “Regulamentar a profissão de redutor de danos significa proteger quem trabalha e reconhecer os saberes construídos na prática. O redutor de danos não faz apologia, ele salva vidas.”
A deputada federal Sâmia Bomfim reforçou o seu compromisso legislativo, compartilhando sobre a recomendação ao Ministério do Trabalho, a criação do CBO do Redutor de Danos, e também detalhando o Projeto de Lei 2035 de 2026, protocolado pela mesma, que propõe a instituição de uma Política Nacional de Redução de Danos e Riscos, e criticando a disparidade orçamentária que favorece comunidades terapêuticas.
“O cuidado não deve ser visto apenas como um ‘gesto de amor’, mas como uma profissão que exige proteção, jornada digna e salário adequado.” afirmou a deputada.
Tadeu de Paula (AMMA Psique) trouxe a dimensão ética do trabalho de campo, alertando para o risco da “eternização do instituinte” como forma de naturalizar a precarização.
“O redutor de danos é aquele que, como diria Fanon, foi ao inferno e voltou. É o movimento social que vai botar pressão para que o saber local seja um critério valoroso de contratação.” disse Tadeu.
Rafael West (Escola Livre de Redução de Danos) analisou a convergência necessária entre a justiça e a saúde, citando o Plano Nacional Pena Justa do CNJ como um marco para reduzir o encarceramento.
“O modelo da guerra às drogas é um pretexto para o controle social. A RD aponta caminhos concretos para a construção de políticas públicas que salvem corpos periféricos.” afirmou Rafael.
Andrea Gallassi, pesquisadora da UnB apontou que, na região Centro-Oeste, existe um apagamento nítido do profissional de redução de danos, que frequentemente é contratado sob outras nomenclaturas na assistência social ou na rede de saúde. Este fenômeno, que ocorre em cidades como Cuiabá, Goiânia, Campo Grande e no Distrito Federal, respinga na prática profissional, alterando a postura de quem executa o trabalho na ponta, dificultando a autoidentificação como redutor ou redutora de danos e dificultando a localização desses profissionais pelo Estado.
Francisco Netto (PDHSM/Fiocruz) abordou a mudança de perspectiva internacional, mencionando que a Comissão sobre Drogas Narcóticas começou a discutir explicitamente a redução de danos em 2024. Ressaltou-se que a repressão total é um modelo falido e que há uma necessidade urgente de que o orçamento público seja direcionado para a Rede de Atenção Psicossocial e não para o fomento de práticas repressivas.

No segundo dia, o seminário compartilhou a voz de quem opera a redução de danos no cotidiano, enfrentando o sucateamento dos serviços públicos, o estigma das ruas e os desafios da liberdade em exercer sua profissão.
Cleiton Alves (Dentinho), trabalhador do Centro de Convivência é de Lei, compartilhou sua trajetória desde que participou como assistido do programa De Braços Abertos, na gestão Haddad em São Paulo, o primeiro programa a aderir parcialmente o método Moradia Primeiro / Housing First.
Como profissional do campo, Dentinho alergou os colegas sobre o surgimento de novas substâncias, como as drogas K, e a necessidade de atualização constante das práticas de cuidado.

“Os redutores precisam ter flexibilidade e conhecimento atualizado para orientar sobre riscos sem julgamentos, combatendo a violência que o preconceito gera na cena de uso.” citou Dentinho durante sua fala.
Ângelo Galdino, Redutor de Danos do Núcleo Div3rso/Unifesp, destacou como o acolhimento da RD permitiu sua trajetória da vivência de rua até a universidade, criticando a visão de usuários como meros objetos de estudo.
“A redução de danos deve focar na segurança e na individualidade biológica, reconhecendo o outro como sujeito de direitos.” afirmou o profissional que atua na baixada santista, e também integra a equipe do CAIS – Diverso em Santos.
Os debates da tarde reuniram temas como: mulheridades, corpos que resistem a opressão e ao controle, ascensão da extrema direita junto às comunidades terapêuticas e outras intersecções, com a participação Enzo Gabriel, Gigi Louise, Juliana Freitas, Júlia Bueno, Camen Lopes e Helena Ferreira.
Redutores de danos compartilharam vivências em serviços de saúde e periferias. Profissionais denunciaram o sucateamento institucional e a pressão por abstinência.
Debateu-se o legado histórico de ativistas trans e a importância da autonomia financeira. Coletivos enfatizaram o cuidado além da substância.
Enzo Gabriel, trabalhador da Casa Renfa, em Salvador, detalhou como funciona o trabalho focado no acolhimento de mulheres e pessoas trans.
Juliana Freitas (Núcleo Div3rso/Unifesp), apresentou pesquisas sobre a intersecção entre RD e feminismo negro, enquanto, Carmen Lopes (fundadora do Coletivo Tem Sentimento, com anos de atuação na região central de São Paulo), enfatizou a necessidade de autonomia comunitária.
“É preciso reconhecer a atuação coletiva como espaço legítimo de cuidado, integrando a identidade de redutoras de danos nas práticas territoriais” abordou Dona Carmen.
Gigi Louise, conselheira do CFP, defendeu a prática da RD como um dever ético frente ao avanço de modelos punitivos e das comunidades terapêuticas: “A luta antiproibicionista é parte indissociável da ética profissional e do cuidado em liberdade.”
O debate também denunciou a disparidade orçamentária: enquanto a redução de danos salva vidas com poucos recursos, o Estado de São Paulo destina cerca de 95% do seu orçamento de políticas sobre drogas (R$ 98 milhões) para comunidades terapêuticas que frequentemente violam direitos humanos.
Foi acordado durante o último dia de evento, a assinatura conjunta na carta de apoio e proteção aos profissionais de saúde e redução de danos que estão sob intimidação no território paranaense.
Os participantes discutiram a precarização do trabalho da RD e a necessidade de fortalecer redes, portanto, decidiu-se coletivamente estruturar o Fórum Estadual de Redução de Danos – SP após a reunião deste Seminário, como parte dessa iniciativa de fortalecimento das redes de RD. Interessados entrar em contato com Myro Rolim (@myro_rolim).

Sobre a ANRD
A Articulação Nacional de Redução de Danos nasce em 2026 fruto da parceria entre o Programa Institucional Institucional de Política de Drogas, Direitos Humanos e Saúde Mental, que é coordenado pelo LAPS (Laboratório de Estudos e Pesquisas de Saúde Mental e Atenção Psicossocial), em parceria com a Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (REDUC), Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD) e a Associação Brasileira de Saúde Mental (ABRASME).
Entidades apoiadoras e parceiras do Seminário
Centro de Convivência É de Lei · Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (ABRAMD) · Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (REDUC) · Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD) · Iniciativa Negra por uma Nova Política sobre Drogas (INPPD) · Programa Institucional sobre Política de Drogas, Direitos Humanos e Saúde Mental da Fiocruz (PDHSM/Fiocruz) · Escola Livre de Redução de Danos (ELRD) · Grupo de Estudos Div3rso – Unifesp Santos
Publicado originalmente no site da Plataforma Brasileira de Política de Drogas